sábado, 5 de fevereiro de 2011

Carvalhos e margaridas




     Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vem operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakesperiano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.

Mario Quintana (Porta giratória, p 32)








Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Leitura dinâmica



       
    Essa tão badalada novidade da leitura dinâmica é muito, muito antiga...
    Quem a inventou foi o vento, o único que sabe praticar de verdade. Inveterado leitor de tabuletas, ele não salta uma só que seja, não perde nenhuma delas. Lê e passa, que o seu destino é passar, mas guarda uma lembrança vertiginosa de todas, das vermelhas, das de azul mais forte, das verdes em todos os tons, sem esquecer, ó Van Gogh, as tabuletas amarelas...
     Porque a maior dor do vento é não ser colorido.
     Sabes?  Passa  no vento a alma  dos pintores mortos,  procurando captar,  levar (para onde?)  as cores deste mundo.
     Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de olhar!

Mario Quintana (Porta giratória, p 40)




Imagem: Vincent van Gogh ("A noite estrelada", 1889)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Da felicidade





    Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
    Procede tal e qual o avozinho infeliz:
    Em vão, por toda parte, os óculos procura,
        Tendo-os na ponta do nariz!

    Mario Quintana (Espelho mágico, p 47)






Citando Cecília Meireles...

A arte de ser feliz


     Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dia límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.
     Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos a tinham criado? e que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.
     Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias - e me sentia completamente feliz.
     Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz. 
    Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refeletidas no espelho do ar. Marimbondos: que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. 
     Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.



Fonte: (Seleta em prosa e verso de Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. p 150)
    

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dos Pontos de Vista





    A mosca, a debater-se: "Não! Deus não existe!
    Somente o Acaso rege a terrena existência!"
    A Aranha: "Glória a Ti, Divina Providência,
    Que à minha humilde teia essa mosca atraíste!"

    Mario Quintana (Espelho mágico, p 45)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Da eterna procura



    Só o desejo inquieto, que não passa,
    Faz o encanto da coisa desejada...
    E terminamos desdenhando a caça
    Pela doida aventura da caçada.

    Mario Quintana (Espelho mágico, p 36)




 Citando Fabio Rocha...

  Vice-rei

    Eu sempre estendi as mãos
    para as borboletas...

    Abria os braços
    para o passado saudoso...
    para o futuro sonhado...
    mas nunca tocaram em mim.

    Hoje, fiquei imóvel
    e uma pousou no meu pé.


    Fonte: A Magia da Poesia



      





Imagem: www.deviantart.com

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011