sábado, 26 de maio de 2012

De repente




        Olho-te espantado:
        Tu és uma Estrela do Mar.
        Um minério estranho.
        Não sei...

        No entanto,
        O livro que eu lesse,
        O livro na mão.
        Era sempre o teu seio!

        Tu estavas no morno da grama,
        Na polpa saborosa do pão...

        Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

        E só o meu cavalo pasta na solidão.

        Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 23)




  Citando Fernando Pessoa... 

     Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos.
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.


    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto.
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    sinto todo meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.


      (O Eu profundo e os outros Eus (seleção poética). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 146)








Imagem: www.weheartit.com

domingo, 22 de abril de 2012

Achados e perdidos




          A memória é um sótão atravancado de objetos inúteis, onde tanto desejaríamos encontrar aquelas coisas perdidas que - de tão perdidas - já nem sabemos mais.
          O que sejam...

Mario Quintana (Caderno H, p 240)




    Citando Lu Tostes...


   Sempre-vivas


     O livro acolheu
     o jardim que se foi,
     nesta flor de um amarelo seco,
     quase marrom,
     que guarda na  página vinte e três
     o sorriso de Maria detrás da porta.

     Sempre nos soubemos mais nós,
     mas foi-se o perfume
        com o tempo da delicadeza,
     no mesmo instante 
     em que o caule partido
     esvaiu-se em seiva.

     E se do que fomos
     nós já não somos mais,
     resta apenas 
     esse cheiro
     na ponta dos dedos,
     lembrando tudo que jaz.


     Lu Tostes


     Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com







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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Astrologia



   Minha estrela não é a de Belém:
   A que, parada, aguarda o peregrino.
   Sem importar-se com qualquer destino
   A minha estrela vai seguindo além...

   - Meu Deus, o que é que esse menino tem?-
   Já suspeitavam desde eu pequenino,
   O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
   E nos desentendemos muito bem!

   E quando tudo parecia a esmo
   E nesses descaminhos me perdia
   Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

   Eu temo é uma traição do instinto
   Que me liberte, por acaso, um dia
   Deste velho e encantado Labirinto.

   Mario Quintana ( Baú de espantos, p 119)




 Citando Chico Buarque... 

  (...) Nina diz que fez meu mapa
  E no céu o meu destino rapta
  o seu (...)





Imagem: Nicolas Gouny

domingo, 25 de março de 2012

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     Tu te abres como uma flor...
     E
     depois
     o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...
     E distanciadamente falamos do nosso mundo com todos os seus inclusives:
     conflagrações, boatos, ataques, surpresas, compromissos...
     E todas essas coisas são poemas a nossos ouvidos.

     Mario Quintana (Baú de espantos, p 58)





  Citando Cecília Meireles... 


  Surpresa
  
   TRAGO os cabelos crespos de vento
   e o cheiro das rosas nos meus vestidos.
   O céu instala no meu pensamento
   Os seus altos azuis estremecidos.


   Águas borbulhantes, árvores tranquilas
   vão adormentando meus tempos chorados.
   E a tarde oferece às minhas pupilas
   nuvens de flores por todos os lados.


   Ó verdes sombras, claridades verdes,
   que esmeraldas sensíveis hei nutrido,
   para sobre o meu coração verterdes
   mirra de primaveras e de olvidos?


   Ó céus, ó terra que de tal maneira
   ardente e amarga tenho atravessado,
   por que agora pensais com tão fino cuidado
   vossa mansa, calada, ferida prisioneira?


(Cecília Meireles - Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. p 95)







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domingo, 4 de março de 2012

Quando eu me for



   Quando eu me for, os caminhos continuarão andando...
   E os meus sapatos também!
   Porque os quartos, as casas que habitamos,
   Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
   Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
   Para alucinarem as nossas noites de insônia!

   Mario Quintana (Velório sem defunto, p 99)




Citando Heráclito de Éfeso... 

  "Para os que entram nos mesmos rios, outras e outras são as águas que correm por eles." 
   





Citando Lu Tostes... 


A fluidez do tempo...

        Se o tempo transforma e desfaz tantos laços, também nos entrega a sensata constatação de que não vale a pena lutar pelo que cumpriu lindamente seu papel e ficou no passado.
    Já não somos os mesmos de segundos atrás e não há por que perpetuar tudo aquilo que segue... e que se isenta de culpas, porque é da natureza da vida o eterno movimento.
     Natural dos belos laços é a saudade, onde nos reencontramos no melhor do que vivemos... e que já não existe mais. Porque se foi um daqueles cor de rosa, bem de menina, eu ficava mais bonita com ele por perto. 
     Hoje apenas sigo na fluidez do tempo... de um modo incompleto, com uma lembrança feliz e um sorriso um pouco mais triste.

Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com










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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Convite




     Basta de poemas para depois...
     Ó Vida, e se nós dois
     Vivêssemos juntos?

     Mario Quintana (Baú de espantos, p 111)





Citando Florbela Espanca...


Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Fonte: (Sonetos Forbela Espanca. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de autores portugueses, 1990. p 99)







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