quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Poeminha do Contra




    Todos esses que aí estão
    Atravancando o meu caminho,

    Eles passarão...
    Eu passarinho!

    Mario Quintana (Caderno H, p 107)







Imagem: www.deviantart.com

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Botânica




Os girassóis parecem flores de retórica.

Mario Quintana (Caderno H, p 335)




Citando Caio Fernando Abreu... 


     Girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
     
Fonte: Querida Suzi em flor...





terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O baú



    Como estranhas lembranças de outras vidas,
    que outros viveram, num estranho mundo,
    quantas coisas perdidas e esquecidas
    no teu baú de espantos... Bem no fundo,

    uma boneca toda estraçalhada!
    (isto não são brinquedos de menino...
    alguma coisa deve estar errada)
    mas o teu coração em desatino

    te traz de súbito uma idéia louca:
    é ela, sim! Só pode ser aquela,
    a jamais esquecida Bem-Amada.

    E em vão tentas lembrar o nome dela...
    e em vão ela te fita... e a sua boca
    tenta sorrir-te mas está quebrada!

    Mario Quintana (Esconderijos do tempo, p 52)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Canção da primavera

(para Érico Veríssimo)



    Primavera cruza o rio
    Cruza o sonho que tu sonhas.
    Na cidade adormecida
    Primavera vem chegando.

    Catavento enlouqueceu,
    Ficou girando, girando.
    Em torno do catavento
    Dancemos todos em bando.

    Dancemos todos, dancemos,
    Amadas, Mortos, Amigos,
    Dancemos todos até
    Não mais saber-se o motivo...

    Até que as paineiras tenham
    Por sobre os muros florido!

    Mario Quintana (Canções, p 25)








Imagem: www.julil.deviantart.com

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sinônimos



     Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos perfeitos: "nunca" e "sempre".

Mario Quintana (Caderno H, p 190)




Citando Milan Kundera... 


     Não existe  meio de verificar  qual é a boa decisão,  pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa, porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
     Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: "Einmal ist keinmal", "Uma vez não conta, uma vez é nunca". Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca.


(A insustentável leveza do ser. São Paulo: Círculo do Livro. p 11) 








Imagem: www.deviantart.com

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cuidado!




A poesia não se entrega a quem a define.

Mario Quintana (Caderno H, p 388)