segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bola de cristal



    A praça, o coreto, o quiosque,
    as primeiras leituras, os primeiros
    versos
    e aquelas paixões sem fim...
    Todo um mundo submerso,
    com suas vozes, seus passos, seus silêncios
    - ai que saudade de mim!
    Deixo-te, pobre menino, aí sozinho...
    Que bom que nunca me viste
    Como te estou vendo agora
    - e é melhor que seja assim...
    Deixo-te
    com os teus sonhos de outrora, os teus livros queridos
    e aquelas paixões sem fim!
    e a praça... o coreto... o quiosque
    onde compravas revistas...
    Sonha, menino triste...
    Sonha...
    - só o teu sonho é que existe.

    Mario Quintana (A cor do invisível, p 97)





Citando Manoel de Barros... 


     Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.




Imagem: www.deviantart.com

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