sexta-feira, 8 de junho de 2012

Quem ama inventa




    Quem ama inventa as coisas a que ama...
    Talvez chegaste quando eu te sonhava.
    Então de súbito acendeu-se a chama!
    Era a brasa dormida que acordava...
    E era um revôo sobre a ruinaria,
    No ar atônito bimbalhavam sinos,
    Tangidos por uns anjos peregrinos
    Cujo dom é fazer ressurreições...
    Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
    O palpitar de nossos corações
    Batendo juntos e festivamente,
    Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
    Oh! meu pobre, meu grande amor distante,
    Nem sabes tu o bem que faz à gente
    Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

    Mario Quintana (A cor do invisível, p 58)





Citando Fabrício Carpinejar...


Não é nenhum grande ato que desperta o amor, não é um heroísmo, uma atitude exemplar, um feito impressionante.

 O que faz um homem amar uma mulher e uma mulher amar o homem é tão pessoal, que é possível passar uma vida inteira sem desvendar o motivo. Não é necessário ter consciência para ser feliz. Não é fundamental entender para amar. Mas é mais bonito.

 Fico me perguntando o que inspirou minha confiança na Cínthya. Qual foi a delicadeza que ela cometeu a ponto de me viciar no convívio? O que realizou no começo do relacionamento que mexeu comigo e não quis mais abandoná-la?

O que ela aprontou de errado que deu tão certo? O que me pôs a repeti-la um dia atrás do outro sem cansar? O que me seduziu de tal forma, que entrei uma vez em sua casa com uma mochila e voltei com uma mala?

Talvez tenha sido sua simplicidade. Eu me impressiono com o que é espontâneo. Não havia quadros em suas paredes, nem estantes. A única coisa que estava de pé era o violão. Aquilo me emocionou: a música de sentinela. Ela brincou:

– O violão é meu confidente, meu melhor amigo.

Inventei de dedilhar as cordas para descobrir logo seus segredos, só que desafinei e ri envergonhado. Não estava maduro para o mistério, não merecia ainda suas lembranças, dependia de mais cumplicidade.

Mas não foi isso, ou somente isso, sempre tem algo que se soma.

Acho que ela travou meu olhar na hora em que passeávamos de carro pela orla do Guaíba. Estreava na rádio a canção Janta, de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

“Eu ando em frente por sentir vontade...”

Cínthya cantava sem conhecer a letra. Aprendia a letra enquanto cantava. Longe do medo da gafe. Em voz alta, errando, tropeçando, gravando o refrão. Completava os trechos que não entendia com melodia e dirigia as rimas até o fim. Descobri que ela tinha coragem. Não iria temer um desafio. Mesmo que fosse complicado como eu.

Pensando bem, me rendi no café da manhã. Quando ela me ofereceu um saco de bolachas doces do bairro Liberdade. Eu peguei as redondas, perfeitas, para explodi-las com exclusividade em meus dentes.

Ela não; ciscou os farelos. Optou pelas bolachas partidas. Do fundo, recolhia os pequenos retângulos, triângulos, quadrados desiguais. Compadecida do pouco, enamorada da miudeza.

Um gesto silencioso que me cativou. Cuidava de mim já na primeira manhã juntos. Comia as quebradas para me deixar as inteiras. Havia cinco ou seis bolachas intactas:

– Toma, por favor...

Reprisando nossa vida, ela avisou, naquele momento, que nunca partiria meu coração.


Fonte: www.carpinejar.blogspot.com.br 







PS: Minha admiração e sinceros agradecimentos ao atencioso Carpinejar.


Imagem: www.weheartit.com

sábado, 26 de maio de 2012

De repente




        Olho-te espantado:
        Tu és uma Estrela do Mar.
        Um minério estranho.
        Não sei...

        No entanto,
        O livro que eu lesse,
        O livro na mão.
        Era sempre o teu seio!

        Tu estavas no morno da grama,
        Na polpa saborosa do pão...

        Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

        E só o meu cavalo pasta na solidão.

        Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 23)




  Citando Fernando Pessoa... 

     Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos.
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.


    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto.
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    sinto todo meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.


      (O Eu profundo e os outros Eus (seleção poética). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 146)








Imagem: www.weheartit.com

domingo, 22 de abril de 2012

Achados e perdidos




          A memória é um sótão atravancado de objetos inúteis, onde tanto desejaríamos encontrar aquelas coisas perdidas que - de tão perdidas - já nem sabemos mais.
          O que sejam...

Mario Quintana (Caderno H, p 240)




    Citando Lu Tostes...


   Sempre-vivas


     O livro acolheu
     o jardim que se foi,
     nesta flor de um amarelo seco,
     quase marrom,
     que guarda na  página vinte e três
     o sorriso de Maria detrás da porta.

     Sempre nos soubemos mais nós,
     mas foi-se o perfume
        com o tempo da delicadeza,
     no mesmo instante 
     em que o caule partido
     esvaiu-se em seiva.

     E se do que fomos
     nós já não somos mais,
     resta apenas 
     esse cheiro
     na ponta dos dedos,
     lembrando tudo que jaz.


     Lu Tostes


     Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com







Imagem: www.weheartit.com

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Astrologia



   Minha estrela não é a de Belém:
   A que, parada, aguarda o peregrino.
   Sem importar-se com qualquer destino
   A minha estrela vai seguindo além...

   - Meu Deus, o que é que esse menino tem?-
   Já suspeitavam desde eu pequenino,
   O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
   E nos desentendemos muito bem!

   E quando tudo parecia a esmo
   E nesses descaminhos me perdia
   Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

   Eu temo é uma traição do instinto
   Que me liberte, por acaso, um dia
   Deste velho e encantado Labirinto.

   Mario Quintana ( Baú de espantos, p 119)




 Citando Chico Buarque... 

  (...) Nina diz que fez meu mapa
  E no céu o meu destino rapta
  o seu (...)





Imagem: Nicolas Gouny

domingo, 25 de março de 2012

*************



     Tu te abres como uma flor...
     E
     depois
     o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...
     E distanciadamente falamos do nosso mundo com todos os seus inclusives:
     conflagrações, boatos, ataques, surpresas, compromissos...
     E todas essas coisas são poemas a nossos ouvidos.

     Mario Quintana (Baú de espantos, p 58)





  Citando Cecília Meireles... 


  Surpresa
  
   TRAGO os cabelos crespos de vento
   e o cheiro das rosas nos meus vestidos.
   O céu instala no meu pensamento
   Os seus altos azuis estremecidos.


   Águas borbulhantes, árvores tranquilas
   vão adormentando meus tempos chorados.
   E a tarde oferece às minhas pupilas
   nuvens de flores por todos os lados.


   Ó verdes sombras, claridades verdes,
   que esmeraldas sensíveis hei nutrido,
   para sobre o meu coração verterdes
   mirra de primaveras e de olvidos?


   Ó céus, ó terra que de tal maneira
   ardente e amarga tenho atravessado,
   por que agora pensais com tão fino cuidado
   vossa mansa, calada, ferida prisioneira?


(Cecília Meireles - Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. p 95)







Imagem: www.weheartit.com

domingo, 4 de março de 2012

Quando eu me for



   Quando eu me for, os caminhos continuarão andando...
   E os meus sapatos também!
   Porque os quartos, as casas que habitamos,
   Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
   Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
   Para alucinarem as nossas noites de insônia!

   Mario Quintana (Velório sem defunto, p 99)




Citando Heráclito de Éfeso... 

  "Para os que entram nos mesmos rios, outras e outras são as águas que correm por eles." 
   





Citando Lu Tostes... 


A fluidez do tempo...

        Se o tempo transforma e desfaz tantos laços, também nos entrega a sensata constatação de que não vale a pena lutar pelo que cumpriu lindamente seu papel e ficou no passado.
    Já não somos os mesmos de segundos atrás e não há por que perpetuar tudo aquilo que segue... e que se isenta de culpas, porque é da natureza da vida o eterno movimento.
     Natural dos belos laços é a saudade, onde nos reencontramos no melhor do que vivemos... e que já não existe mais. Porque se foi um daqueles cor de rosa, bem de menina, eu ficava mais bonita com ele por perto. 
     Hoje apenas sigo na fluidez do tempo... de um modo incompleto, com uma lembrança feliz e um sorriso um pouco mais triste.

Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com










Imagem: www.weheartit.com