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domingo, 4 de março de 2012

Quando eu me for



   Quando eu me for, os caminhos continuarão andando...
   E os meus sapatos também!
   Porque os quartos, as casas que habitamos,
   Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
   Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
   Para alucinarem as nossas noites de insônia!

   Mario Quintana (Velório sem defunto, p 99)




Citando Heráclito de Éfeso... 

  "Para os que entram nos mesmos rios, outras e outras são as águas que correm por eles." 
   





Citando Lu Tostes... 


A fluidez do tempo...

        Se o tempo transforma e desfaz tantos laços, também nos entrega a sensata constatação de que não vale a pena lutar pelo que cumpriu lindamente seu papel e ficou no passado.
    Já não somos os mesmos de segundos atrás e não há por que perpetuar tudo aquilo que segue... e que se isenta de culpas, porque é da natureza da vida o eterno movimento.
     Natural dos belos laços é a saudade, onde nos reencontramos no melhor do que vivemos... e que já não existe mais. Porque se foi um daqueles cor de rosa, bem de menina, eu ficava mais bonita com ele por perto. 
     Hoje apenas sigo na fluidez do tempo... de um modo incompleto, com uma lembrança feliz e um sorriso um pouco mais triste.

Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com










Imagem: www.weheartit.com

domingo, 23 de outubro de 2011

Encontro mágico




     Eis que encontro na rua uma das moças mais lindas do mundo.
     Vestida simplesmente, parecia no entanto uma princesa
     Um meigo olhar, um sorriso que parecia uma aurora dentro de nós.
     Não pude, não pude mais e lhe indaguei de súbito:
     "Como é teu nome, minha querida?"
     E ela respondeu-me: AUSÊNCIA.

     Mario Quintana (Velório sem defunto, p 51)





Citando Cecília Meireles... 

Recordação


AGORA, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.

Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.

As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exalação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.

E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.

Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis.


(Cecília Meireles - Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. p 51)







Imagem: www.weheartit.com

domingo, 9 de outubro de 2011

Catástrofe



    O meu esporte único é a luta corpo a corpo com o meu  Anjo da Guarda.
    Lutamos tanto pelo que queremos
    Que no final ficaremos redondamente mortos no chão,
    Para maior alívio de Nosso Senhor,
    Para sempre livre de nós dois!

    Mario Quintana (Velório sem defundo, p 149)




Citando Florbela Espanca... 

Alma perdida


Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras minh'alma
Que choraste perdida em tua voz!...

Fonte: (Sonetos Forbela Espanca. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de autores portugueses, 1990. p 50)








Imagem: www.deviantart.com

terça-feira, 19 de julho de 2011

Da mesma idade



    A criança que brinca e o poeta que faz um poema
    Estão ambos na mesma idade mágica!

     Mario Quintana (Velório sem defunto, p 127)









Imagem: www.deviantart.com

terça-feira, 29 de março de 2011

Confissão



    Que esta minha paz e este meu amado silêncio
    Não iludam a ninguém
    Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
    Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
    Acho-me relativamente feliz
    Porque nada de exterior me acontece...
    Mas,
    Em mim, na minha alma,
    Pressinto que vou ter um terremoto!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 69)




Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 11 de março de 2011

A arte de viver


    A arte de viver
    É simplesmente a arte de conviver...
    Simplesmente, disse eu?
    Mas como é difícil!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 35)



Imagem: www.deviantart.com

quarta-feira, 2 de março de 2011

***




    É preciso algo que nos preocupe
    Para acabar com a monotonia.
    Briga com a sogra, dúvida
    De tua vida, de Deus, de tudo,
    Das próprias coisas que melhores julgas,
    Porque, na verdade,
    Não há nada mais chato na vida
    Do que um cachorro sem pulgas...

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 45)



     Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Madrigal





    Tu és a matéria plástica de meus versos, querida...
    Porque, afinal,
    Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
    Eu sempre fiz versos de ti!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 133)




Citando Chico Buarque... 


As vitrines
  
[...] cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão.







Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

***


                
    Os psicanalistas, como o caso deles me preocupa!
    Eles próprios sofrem de um dos mais terríveis complexos do mundo,
    Que é o complexo dos complexos.
    Ah, se a gente pudesse ter uma simples e amistosa conversa com eles,
    Sem que descubram coisas por trás!
    E se, por acaso,
    Tombar um ovo choco no chão,
    Por que hei de ser um maníaco homicida,
    Um fabricante de anjinhos?!
    Por que não vão eles inquirir sobre isso o próprio Acaso?
    Que não sabe de nada...

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 145)


Imagem: www.deviantart.com

sábado, 1 de janeiro de 2011

Batuque

                
    Dentro da noite sinto-me às vezes pula-pulando ao som do batuque
    Como se não tivesse nunca quebrado a minha perna esquerda...
    E tudo vai fantasticamente como nesses desenhos animados
    - salvo quando me sinto bobamente flutuando no espaço...
    Ah! mas não há nada mais fantástico
    Do que esta minha simples mesinha de pinho
    Onde sempre me confesso com divertida emoção!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 25)




Que 2011 venha com o mesmo sorriso largo, o borogodó e a alegria do samba... 































Imagem: Heitor dos Prazeres ("Sambistas", 1965) 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O tamanho da gente

                             
    O homem acha o Cosmos infinitamente grande
    E o micróbio infinitamente pequeno.
    E ele, naturalmente,
    Julga-se do tamanho natural...
    Mas, para Deus, é diferente:
    Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
    E, a seus olhos, o bacilo de Koch,
    A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
    São todos infinitamente do mesmo tamanho...

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 153)




Citando Ana Jácomo...

Pra quem tem olhos que escutam

Vive mais feliz quem tem olhos capazes de escutar o canto amoroso da simplicidade.
É nas miudezas que tudo aquilo que realmente importa se revela com maior nitidez.






Desejo que em 2011 brote em cada coração a luz necessária para perceber poesia em todas as pequenas-grandes coisas do mundo... 
Estejamos, então, de corações abertos e de olhos atentos.
Feliz Ano Novo a todos!
Lu

domingo, 26 de dezembro de 2010

O vento e eu

                         
    O vento morria de tédio
    Porque apenas gostava de cantar
    Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
    Cada vez mais vazia...
    Tentei então compor-lhe uma canção
    Tão comprida como a minha vida
    E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
    Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
    E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
    Mas o vento, por  isso
    Me julga agora como ele...
    E me dedica um amor solidário, profundo!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 91)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Os três Reis Magos


Um trouxe a mirra,
Outro o incenso,
Outro o ouro.
Mirra e incenso evaporam-se
E, agora,
Ainda queres saber o que foi feito do ouro?
Mas tu não sabias?! O ouro também evapora-se...

Mario Quintana (Velório sem defunto, p 63)