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domingo, 21 de agosto de 2011

Canção de vidro



    E nada vibrou...
    Não se ouviu nada...
    Nada...

    Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.

    Cala, amigo...
    Cuidado, amiga...
    Uma palavra só
    Pode tudo perder para sempre...
    E é tão puro o silêncio agora!

    Mario Quintana (Canções, p 26)



Imagem: www.deviantart.com

sábado, 13 de agosto de 2011

Canção de ballet

   

   Ele sozinho passeia
   Em seu palácio invisível.
   Linda moça risca um riso
   Por trás do muro de vidro.

   Risca e foge, num adejo.
   Ele pára, de alma tonta.
   Um beijo brota na ponta
   Do galho do seu desejo.

   E pouco a pouco se achegam.
   Põem a alma contra a palma.
   Mas o frio, o frio de vidro
   Lhe penetra a própria alma!

   "Ai do meu Reino Encantado,
   Se tudo aqui é impossível...
   Pra que palácio invisível
   Se o mundo está do outro lado?"

   E inda busca, de alma louca,
   Aquele lábio vermelho.
   Ai, o frio da própria boca!
   O amor é um beijo no espelho...

   Beija e cai, como um engonço,
   Todo desarticulado...
   Linda moça, como um sonho,
   Se dissipa do outro lado...


   Mario Quintana (Canções, p 45)





Citando Carlos Drummond de Andrade... 


A língua girava no céu da boca
  
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo deprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou:  a vida menor.


Fonte: Projeto Releituras









Imagem: Gustav Klimt ("O beijo", 1907-08)
 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Canção de outono

    (para Salim Daou)


                              
    O outono toca realejo
    No pátio da minha vida.
    Velha canção, sempre a mesma,
    Sob a vidraça descida...

    Tristeza? Encanto? Desejo?
    Como é possível sabê-lo?
    Um gozo incerto e dorido
    De carícia e contrapelo...

    Partir, ó alma, que dizes?
    Colher as horas, em suma...
    Mas os caminhos do Outono
    Vão dar em parte nenhuma!

    Mario Quintana (Canções, p 31)








Imagem: www.deviantart.com

quarta-feira, 16 de março de 2011

Canção da chuva e do vento

     
                      
    Dança, Velha. Dança. Dança.
    Põe um pé. Põe outro pé.
    Mais depressa. Mais depressa.
    Põe mais pé. Pé. Pé.

    Upa. Salta. Pula. Agacha.
    Mete pé e mete assento.
    Que o velho agita, frenético,
    O seu chicote do vento.

    Mansinho agora, mansinho.
    Até de todo caíres...
    Que o Velho dorme de velho...
    Sob os arcos do Arco-íris.

    Mario Quintana (Canções, p 52)




Citando Fabio Rocha...

Vento forte
(para Mario Quintana)


O vento aqui não pára.

Nem um segundo,
nem um pouquinho.

Ah, se eu fosse moinho...











Imagem: www.deviantart.com

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Canção da primavera

(para Érico Veríssimo)



    Primavera cruza o rio
    Cruza o sonho que tu sonhas.
    Na cidade adormecida
    Primavera vem chegando.

    Catavento enlouqueceu,
    Ficou girando, girando.
    Em torno do catavento
    Dancemos todos em bando.

    Dancemos todos, dancemos,
    Amadas, Mortos, Amigos,
    Dancemos todos até
    Não mais saber-se o motivo...

    Até que as paineiras tenham
    Por sobre os muros florido!

    Mario Quintana (Canções, p 25)








Imagem: www.julil.deviantart.com

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Canção do amor imprevisto



    Eu sou um homem fechado.
    O mundo me tornou egoísta e mau.
    E a minha poesia é um vício triste,
    Desesperado e solitário
    Que eu faço tudo por abafar.

    Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
    Com o teu passo leve,
    Com esses seus cabelos...

    E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...

    A súbita dolorosa alegria de um espantalho inútil
    Aonde viessem pousar os passarinhos!


    Mario Quintana (Canções, p 62)



Citando Fernando Pessoa... 
(sob pseudônimo de Alberto Caeiro)

O pastor amoroso 

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(10-7-1930)

Fonte: (O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 167) 






Imagem: www.deviantart.com

domingo, 30 de janeiro de 2011

Canção de nuvem e vento


                                
  
    Medo da nuvem
    Medo Medo
    Medo da nuvem que vai crescendo
    Que vai se abrindo
    Que não se sabe
    O que vai saindo
    Medo da Nuvem Nuvem
    Medo do vento
    Medo Medo
    Medo do vento que vai ventando
    Que vai falando
    Que não se sabe
    O que vai dizendo
    Medo do vento Vento Vento
    Medo do gesto
    Mudo
    Medo da fala
    Surda
    Que vai movendo
    Que vai dizendo
    Que não se sabe...
    Que bem se sabe
    Que tudo é nuvem que tudo é vento
    Nuvem e vento Vento Vento!

    Mario Quintana (Canções, p 35)




Citando Sophia de Mello Breyner Andresen...


Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece a imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.








Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Canção para uma valsa lenta


    
    Minha vida não foi um romance...
    Nunca tive até hoje um segredo.
    Se me amas, não digas, que morro
    De surpresa... de encanto... de medo...

    Minha vida não foi um romance,
    Minha vida passou por passar.
    Se não me amas, não finjas, que vivo
    Esperando um amor para amar.

    Minha vida não foi um romance...
    Pobre vida... passou sem enredo...
    Glória a ti que me enches a vida
    De surpresa, de encanto, de medo!

    Minha vida não foi um romance...
    Ai de mim... Já se ia acabar!
    Pobre vida que toda depende
    De um sorriso... de um gesto... um olhar...

    Mario Quintana (Canções, p 60)






terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Canção azul


    Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer pisaste no teu caminho...
    Miosótis -, disseste, inclinado um instante sobre ela.
    E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
    Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
    Nem que iria impregnar, com o triste encanto,
    O teu poema daquele dia...

    Mario Quintana (Canções, p 30)




segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A canção que não foi escrita


                               
Alguém sorriu como Nossa Senhora à alma triste do Poeta.
Ele voltou para casa
E quis louvar o bem que lhe fizeram.

Adormeceu...

E toda a noite brilhou no sono dele uma pobre estrelinha perdida,
Trêmula
Como uma luz contra o vento...

Mario Quintana (Canções, p 27)






Imagem: www.deviantart.com

domingo, 9 de janeiro de 2011

Canção dos Romances Perdidos


    Oh! o silêncio das salas de espera
    Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...

    O silêncio das salas de espera
    E aquela última estrela...

    Aquela última estrela
    Que bale, bale, bale,
    Perdida na enchente da luz...

    Aquela última estrela
    E, na parede, esses quadros lívidos,
    De onde fugiram os retratos...

    De onde fugiram todos os retratos...

    E esta minha ternura
    Meu Deus,
    Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...

    Mario Quintana (Canções, p 59)



sábado, 27 de novembro de 2010

Canção do dia de sempre

   (para Norah Lawson)


   Tão bom viver dia a dia...
   A vida, assim, jamais cansa...

   Viver tão só de momentos
   Como essas nuvens do céu...

   É só ganhar, toda a vida,
   Inexperiência... esperança...

   E a rosa louca dos ventos
   Presa à copa do chapéu.

   Nunca dês um nome a um rio:
   Sempre é outro rio a passar.

   Nada jamais continua,
   Tudo vai recomeçar!

   E sem nenhuma lembrança
   Das outras vezes perdidas,
   Atiro a rosa do sonho
   Nas tuas mãos distraídas...

   Mario Quintana (Canções, p 47)