"Dai-me a alegria / Do poema de cada dia. / E que ao longo do caminho / Às almas eu distribua / Minha porção de poesia" (Mario Quintana - A cor do invisível. São Paulo: Globo, 2005. p 142)
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domingo, 21 de agosto de 2011
Canção de vidro
E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
E é tão puro o silêncio agora!
Mario Quintana (Canções, p 26)
Imagem: www.deviantart.com
sábado, 13 de agosto de 2011
Canção de ballet
Ele sozinho passeia
Em seu palácio invisível.Linda moça risca um riso
Por trás do muro de vidro.
Risca e foge, num adejo.
Ele pára, de alma tonta.
Um beijo brota na ponta
Do galho do seu desejo.
E pouco a pouco se achegam.
Põem a alma contra a palma.
Mas o frio, o frio de vidro
Lhe penetra a própria alma!
"Ai do meu Reino Encantado,
Se tudo aqui é impossível...
Pra que palácio invisível
Se o mundo está do outro lado?"
E inda busca, de alma louca,
Aquele lábio vermelho.
Ai, o frio da própria boca!
O amor é um beijo no espelho...
Beija e cai, como um engonço,
Todo desarticulado...
Linda moça, como um sonho,
Se dissipa do outro lado...
Mario Quintana (Canções, p 45)
Citando Carlos Drummond de Andrade...
A língua girava no céu da boca
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo deprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.
Fonte: Projeto Releituras
Imagem: Gustav Klimt ("O beijo", 1907-08)
quarta-feira, 23 de março de 2011
Canção de outono
(para Salim Daou)
O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia e contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana (Canções, p 31)
O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia e contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana (Canções, p 31)
Imagem: www.deviantart.com
quarta-feira, 16 de março de 2011
Canção da chuva e do vento
Dança, Velha. Dança. Dança.
Põe um pé. Põe outro pé.
Mais depressa. Mais depressa.
Põe mais pé. Pé. Pé.
Upa. Salta. Pula. Agacha.
Mete pé e mete assento.
Que o velho agita, frenético,
O seu chicote do vento.
Mansinho agora, mansinho.
Até de todo caíres...
Que o Velho dorme de velho...
Sob os arcos do Arco-íris.
Mario Quintana (Canções, p 52)
Citando Fabio Rocha...
Vento forte
(para Mario Quintana)
O vento aqui não pára.
Nem um segundo,
nem um pouquinho.
Ah, se eu fosse moinho...
Fonte: A Magia da Poesia
Imagem: www.deviantart.com
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Canção da primavera
(para Érico Veríssimo)
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana (Canções, p 25)
Imagem: www.julil.deviantart.com
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mario Quintana (Canções, p 25)
Imagem: www.julil.deviantart.com
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Canção do amor imprevisto
Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses seus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...
A súbita dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!
Mario Quintana (Canções, p 62)
Citando Fernando Pessoa...
(sob pseudônimo de Alberto Caeiro)
O pastor amoroso
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
(10-7-1930)
Fonte: (O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 167)
Imagem: www.deviantart.com
domingo, 30 de janeiro de 2011
Canção de nuvem e vento
Medo da nuvem
Medo Medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que vai se abrindo
Que não se sabe
O que vai saindo
Medo da Nuvem Nuvem
Medo do vento
Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que vai falando
Que não se sabe
O que vai dizendo
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto
Mudo
Medo da fala
Surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe...
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem que tudo é vento
Nuvem e vento Vento Vento!
Mario Quintana (Canções, p 35)
Citando Sophia de Mello Breyner Andresen...
Procelária
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece a imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece a imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.
Fonte: Cantos de mar e céu
Imagem: www.deviantart.com
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Canção para uma valsa lenta
Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não me amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...
Mario Quintana (Canções, p 60)
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Canção azul
Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer pisaste no teu caminho...
Miosótis -, disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o triste encanto,
O teu poema daquele dia...
Mario Quintana (Canções, p 30)
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A canção que não foi escrita
Alguém sorriu como Nossa Senhora à alma triste do Poeta.
Ele voltou para casa
E quis louvar o bem que lhe fizeram.
Adormeceu...
E toda a noite brilhou no sono dele uma pobre estrelinha perdida,
Trêmula
Como uma luz contra o vento...
Mario Quintana (Canções, p 27)
Imagem: www.deviantart.com
domingo, 9 de janeiro de 2011
Canção dos Romances Perdidos
Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...
Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...
Aquela última estrela
E, na parede, esses quadros lívidos,
De onde fugiram os retratos...
De onde fugiram todos os retratos...
E esta minha ternura
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...
Mario Quintana (Canções, p 59)
sábado, 27 de novembro de 2010
Canção do dia de sempre
(para Norah Lawson)
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
É só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana (Canções, p 47)
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
É só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana (Canções, p 47)
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