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sábado, 26 de maio de 2012

De repente




        Olho-te espantado:
        Tu és uma Estrela do Mar.
        Um minério estranho.
        Não sei...

        No entanto,
        O livro que eu lesse,
        O livro na mão.
        Era sempre o teu seio!

        Tu estavas no morno da grama,
        Na polpa saborosa do pão...

        Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

        E só o meu cavalo pasta na solidão.

        Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 23)




  Citando Fernando Pessoa... 

     Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos.
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.


    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto.
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    sinto todo meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.


      (O Eu profundo e os outros Eus (seleção poética). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 146)








Imagem: www.weheartit.com

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cântico



    O vento verga as árvores, o vento clamoroso da aurora...
    Tu vens precedida pelos vôos altos,
    Pela marcha lenta das nuvens.
    Tu vens do mar, comandando as frotas do Descobrimento!
    Minh'alma é trêmula da revoada dos Arcanjos.
    Eu escancaro amplamente as janelas.
    Tu vens montada no claro touro da aurora.
    Os clarins de ouro dos teus cabelos cantam na luz!

    Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 51)








Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mundo



    E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres desconhecidos,
    Uma data ilegível e maravilhosa.

    Quem viria bater à minha porta?

    Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,
    Outro amar sob estranhos zodíacos...

    Outro...

    E o terror de construir mitologias novas!


    Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 24)






Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Depois

                           
                          
Nem a coluna truncada:
Vento.
Vento escorrendo cores.
Cor dos poentes nas vidraças.
Cor das tristes madrugadas.
Cor da boca...
Cor das tranças...
Ah,
Das tranças avoando loucas
Sob sonoras arcadas...
Cor dos olhos...
Cor das saias
Rodadas...
E a concha branca da orelha
Na imensa praia
Do tempo.

Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 37)





Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Noturno


Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que fazem os caminhos.
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!

Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 43)