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domingo, 8 de julho de 2012

Um pé depois do outro




          Será do tempo? Será do quê? Os meus sapatos rincham, os meus sapatos cantam de alegria. E eu vou andando e aguardando cá de cima - que o seu oculto motivo chegue afinal até meu coração.

Mario Quintana (Caderno H, p 276)





Citando Cecília Meireles... 


Transformação do dançarino
  
Nasce da sombra o dançarino,
de um ovo de seda e mistério.
E seu perfil é transparente
e sua carne é a de um inseto.


E eu o amo como às borboletas,
à asa das libélulas, e erro
no seu mundo sem solo, reino
que se vai tornando sidéreo.


Suas tênues mãos nada tocam,
e olha entre verdes águas, cego.
Cada posição de seu corpo
é um símbolo instantâneo e hermético.


Toma nos lábios o silêncio
e é um peixe bebendo o mar, quieto.
Gira e, súbito se divide,
como espelho que cai de um prego.


(Poesias Completas de Cecília Meireles, Volume II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. p 172)




 


Imagem: www.weheartit.com

domingo, 22 de abril de 2012

Achados e perdidos




          A memória é um sótão atravancado de objetos inúteis, onde tanto desejaríamos encontrar aquelas coisas perdidas que - de tão perdidas - já nem sabemos mais.
          O que sejam...

Mario Quintana (Caderno H, p 240)




    Citando Lu Tostes...


   Sempre-vivas


     O livro acolheu
     o jardim que se foi,
     nesta flor de um amarelo seco,
     quase marrom,
     que guarda na  página vinte e três
     o sorriso de Maria detrás da porta.

     Sempre nos soubemos mais nós,
     mas foi-se o perfume
        com o tempo da delicadeza,
     no mesmo instante 
     em que o caule partido
     esvaiu-se em seiva.

     E se do que fomos
     nós já não somos mais,
     resta apenas 
     esse cheiro
     na ponta dos dedos,
     lembrando tudo que jaz.


     Lu Tostes


     Fonte: www.fasesdaluha.blogspot.com







Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Contrição





     Bem que eu desejaria entender tanto de poesia como certos críticos, mas aí, então, não conseguiria fazer um único verso...

Mario Quintana (Caderno H, p 175)





Citando Clarice Lispector...


Não, não é fácil escrever. 
É duro como quebrar rochas.
Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.

Fonte: www.simplesmente-clarice.blogspot.com




Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Frustração



     Outono: essas folhas que tombam na água parada dos tanques e não podem sair viajando pelas correntes do mundo...

Mario Quintana (Caderno H, p 81)




Citando Florbela Espanca... 

Outonal


Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País Vago...


Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...


Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a Terra inteira de esplendor!


Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor...


Sonetos. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses. p 106








Imagem: www.weheartit.com

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Luz própria





     Os sonhos têm luz própria, uma luz que não vem de nenhum sol, de nenhuma lua, de nenhum foco. Está em toda parte. Na próxima vez que sonhares, procura ver se o teu vulto projeta alguma sombra. E se a tua imagem se reflete nalgum espelho. Tolice minha! Nos salões dos sonhos nunca há espelhos...

Mario Quintana (Caderno H, p 262)


Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coisas enumeradas de um a trinta e cinco - XVII



A rede das estrelas é uma incômoda teia de aranha sobre a face da Eternidade.

Mario Quintana (Caderno H, p 210)


Imagem: Mark A. Payton

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A voz

    


    Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Mario Quintana (Caderno H, p 198)



Citando Florbela Espanca... 

Ser poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim.
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!


Sonetos. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses. p 106



Imagem: Florbela Espanca

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Coisas enumeradas de um a trinta e cinco - XVIII



     A voz do vento... Ninguém sabe o que o vento quer dizer... Quem me faz uma letra para a voz do vento?

Mario Quintana (Caderno H, p 210)








Imagem: www.weheartit.com


segunda-feira, 6 de junho de 2011

O mundo do sonho



          O mundo do sonho é silencioso como o mundo submarino. Por isso é que faz bem sonhar.

Mario Quintana (Caderno H, p 63)







Imagem: www.weheartit.com

sábado, 28 de maio de 2011

Ainda e sempre




Digam o que disserem, mas a Lua continua sendo o LSD dos poetas.

Mario Quintana (Caderno H, p 257)



Imagem: www.weheartit.com

sábado, 14 de maio de 2011

Exame de inconsciência




     Há noites em que não posso dormir de remorsos por tudo o que deixei de cometer.

Mario Quintana (Caderno H, p 335)




Citando Carlos Drummond de Andrade... 


Estrambote melancólico
  
Tenho saudade de mim mesmo, sau-
dade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e  sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A  estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.


Fonte: (Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 1986. p 40)





Citando Fabio Rocha... 

Tudo pelos ares

Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.


Fonte: A Magia da Poesia


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Do pensamento




     Eu penso em ti. Sabias que isso é uma coisa maravilhosa? A primeira criatura que pensou numa outra criatura ausente, como deve ter-se espantado! Não sabia que se tratava do seu primeiro pensamento humano.

Mario Quintana (Caderno H, p 363)






Imagem: www.deviantart.com

domingo, 8 de maio de 2011

Fatos consumados



... e se eles te apertarem muito sobre o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhes apenas o que Deus quis dizer com este nosso mundo.

Mario Quintana (Caderno H, p 373)



Imagem: www.deviantart.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Do ideal


     As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas - tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.

Mario Quintana (Caderno H, p 290)



Imagem: www.deviantart.com

domingo, 1 de maio de 2011

O dragão





     Na volta da esquina encontrei um dragão.
     - Que belas escamas, senhor dragão! Que luminoso laquê! E as chamas que deitais por vossa goela têm o colorido e o movimento de um balê! E que padrão heráldico, Excelência, que...
     O dragão saiu se reboleando.

Mario Quintana (Caderno H, p 82)



Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Hamletiana



Ser ou estar... eis a questão!

Mario Quintana (Caderno H, p 313)




Citando Fernando Pessoa...


Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que um dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

(Mensagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p 223)


Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dos tipos humanos




     Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?

Mario Quintana (Caderno H, p 231)



Imagem: Luluka

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A vendedora de violetas



     Não te assustes com a cafonice do título. Eu também não acredito que tenham jamais existido as vendedoras de violetas. É dessas coisas falsamente poéticas, pura invencionice para idealizar a miséria misturando-a com flores - ainda mais a violeta, famosa pela sua humildade e modéstia - ôrre!

Mario Quintana (Caderno H, p 272)



Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O problema




     Cineastas, romancistas, psicólogos e outros psis - como se preocupam eles com o problema da solidão! Por quê? O único problema da solidão consiste em como preservá-la.

Mario Quintana (Caderno H, p 267)




Imagem: www.weheartit.com

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Frêmito




Um ruído assusta o cheiro do jasmineiro.

Mario Quintana (Caderno H, p 232)








Imagem: www.deviantart.com