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domingo, 16 de outubro de 2011

A bem-amada na praia


      Sua bundinha
     Deixou na areia
     A forma exata
     De um coração!

     Mario Quintana (Preparativos de viagem, p 137)




Citando Vinicius de Moraes... 

Receita de mulher


As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso 
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture 
Em tudo isso (ou então 
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). 
Não há meio-termo possível. É preciso 
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito 
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto 
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. 
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche 
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas 
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços 
Alguma coisa além da carne: que se os toque 
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então 
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca 
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência. 
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos 
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas 
No enlaçar de uma cintura semovente. 
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras 
É como um rio sem pontes. Indispensável 
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida 
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios 
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca 
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal 
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! 
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas 
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem 
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio 
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) 
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos 
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão 
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre 
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos 
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face 
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior 
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras 
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes 
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e 
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão 
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta 
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. 
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos 
Ao abri-los ela não mais estará presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá 
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber 
O fel da dúvida. Oh, sobretudo 
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo 
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma 
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre 
O impossível perfume; e destile sempre 
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto 
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina 
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição 
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Fonte: www.viniciusdemoraes.com.br











Imagem: Dorival Caymmi ("Mulher na praia")

sábado, 13 de agosto de 2011

Canção de ballet

   

   Ele sozinho passeia
   Em seu palácio invisível.
   Linda moça risca um riso
   Por trás do muro de vidro.

   Risca e foge, num adejo.
   Ele pára, de alma tonta.
   Um beijo brota na ponta
   Do galho do seu desejo.

   E pouco a pouco se achegam.
   Põem a alma contra a palma.
   Mas o frio, o frio de vidro
   Lhe penetra a própria alma!

   "Ai do meu Reino Encantado,
   Se tudo aqui é impossível...
   Pra que palácio invisível
   Se o mundo está do outro lado?"

   E inda busca, de alma louca,
   Aquele lábio vermelho.
   Ai, o frio da própria boca!
   O amor é um beijo no espelho...

   Beija e cai, como um engonço,
   Todo desarticulado...
   Linda moça, como um sonho,
   Se dissipa do outro lado...


   Mario Quintana (Canções, p 45)





Citando Carlos Drummond de Andrade... 


A língua girava no céu da boca
  
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo deprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou:  a vida menor.


Fonte: Projeto Releituras









Imagem: Gustav Klimt ("O beijo", 1907-08)
 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Parábola


     A imagem daqueles salgueiros nágua é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros.

Mario Quintana (Sapato florido, p 61)



Imagem: Claude Monet ("Salgueiro chorão", 1919)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Da arte pura



     Dizem eles, os pintores, que o assunto não passa de uma falta de assunto: tudo é apenas um jogo de cores e volumes. Mas, eu, humanamente, continuo desconfiado que deve haver alguma diferença entre uma mulher nua e uma abóbora.

Mario Quintana (Caderno H, p 313)



Imagem: Amedeo Modigliani ("Nude Sitting on a Divan", 1917)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Da mediocridade



     Nossa alma incapaz e pequenina
     Mais complacência que irrisão merece.
     Se ninguém é tão bom quanto imagina,
     Também não é tão mau como parece.

     Mario Quintana (Espelho mágico, p 33)



      Imagem: Fernando Botero ("Bailarina na Barra", 1984)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Primavera



   As águas riem como raparigas
   À sombra verde-azul das samambaias!

    Mario Quintana (A cor do invisível, p 29)








Imagem: Claude Monet ("Vitórias régias e chorões em lago", 1916)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O leitor ideal




     O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
     Uma frase? Que digo? Uma palavra!
     O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina".
     Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
     Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
     Sem mais nada.
     Até sem nome.
     Sem cor de vestido nem de olhos.
     Sem se saber para onde ia...
     Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
     E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
     E  se  o leitor  nada  conseguisse  tirar  dessa  obra-prima,  poderia  o autor  alegar,  cavilosamente,  que  a culpa não era do cronista.
     Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar os seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
     Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?

Mario Quintana (Porta giratória, p 74)



Imagem: Anita Malfatti ("A ventania", 1915-17)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poema para uma exposição


                 
    O quadro na parede abre uma janela
    que dá para o outro mundo
    deste mundo...

    Um mundo isento de rumores
    e de mil flutuações atmosféricas
    - alheio a toda humana contingência...

    Onde um momento é sempre
    e o mal e o bem não têm nenhum sentido...

    Mundo
    em que forma também é a própria essência.

    Ó Vida
    Transfixada ao muro - e que palpita,
    entanto,
    num misterioso, eterno movimento!

    Mario Quintana (A cor do invisível, p 38)



      Imagem: Claude Monet ("Mulher com sombrinha", 1875)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Leitura dinâmica



       
    Essa tão badalada novidade da leitura dinâmica é muito, muito antiga...
    Quem a inventou foi o vento, o único que sabe praticar de verdade. Inveterado leitor de tabuletas, ele não salta uma só que seja, não perde nenhuma delas. Lê e passa, que o seu destino é passar, mas guarda uma lembrança vertiginosa de todas, das vermelhas, das de azul mais forte, das verdes em todos os tons, sem esquecer, ó Van Gogh, as tabuletas amarelas...
     Porque a maior dor do vento é não ser colorido.
     Sabes?  Passa  no vento a alma  dos pintores mortos,  procurando captar,  levar (para onde?)  as cores deste mundo.
     Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de olhar!

Mario Quintana (Porta giratória, p 40)




Imagem: Vincent van Gogh ("A noite estrelada", 1889)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Verso perdido


... eu te amo a perder de vista.

Mario Quintana (Caderno H, p 108)




Imagem: Gustav Klimt ("Mãe e filho", 1905)
   

sábado, 1 de janeiro de 2011

Batuque

                
    Dentro da noite sinto-me às vezes pula-pulando ao som do batuque
    Como se não tivesse nunca quebrado a minha perna esquerda...
    E tudo vai fantasticamente como nesses desenhos animados
    - salvo quando me sinto bobamente flutuando no espaço...
    Ah! mas não há nada mais fantástico
    Do que esta minha simples mesinha de pinho
    Onde sempre me confesso com divertida emoção!

    Mario Quintana (Velório sem defunto, p 25)




Que 2011 venha com o mesmo sorriso largo, o borogodó e a alegria do samba... 































Imagem: Heitor dos Prazeres ("Sambistas", 1965) 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

XXXIII


     Se não fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?

Mario Quintana (Caderno H, p 213)




Imagem: Vincent van Gogh ("Vaso com doze girassóis", 1889)

domingo, 14 de novembro de 2010

O Tempo




    O despertador é um objeto abjeto.
    Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
    E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho paralítico a tocar a
                                                                                                     [campainha atroz.
    Nós
    é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
    Nós, os seus escravos.
    Só os poetas
    os amantes
    os bêbados
    podem fugir
    por instantes
    ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
    quando encontra crianças a brincar de roda
    e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!

    Porque elas, simplesmente, o ignoram...

    Mario Quintana (Antologia Poética, p 89)








Imagem: Salvador Dalí ("A persistência da memória", 1931)