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sábado, 10 de setembro de 2011

Primavera



     A primavera é a estação dos risos etc. etc. Mal treme a brisa e mal palpita o lago. Mas de que brisa me hablas, Casemiro? É vento, é chuva - é isto!
     Ah, pelo que vocês dizem e pelo que se vê, a primavera é apenas uma licença poética...

Mario Quintana (Porta giratória, p 26)








Imagem: www.weheartit.com

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O pássaro pi-i



     O pássaro pi-i só pode viajar aos pares e por isso é o símbolo dos namorados - pois um deles só tem a asa do lado direito e o outro só tem a asa do lado esquerdo: só bem juntinhos é que podem voar!

Mario Quintana (Porta giratória, p 144)





Citando Cecília Meireles... 


Pássaro
  
AQUILO que ontém cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.


Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.


Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.


Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.


(Cecília Meireles - Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973. p 30)








Imagem: www.freepik.com

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Verso avulso



A vida não dá tempo para a Vida.

Mario Quintana (Porta giratória, p 59)










Imagem: www.weheartit.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pergunta inocente



     Mas se as bruxas têm tantos poderes - por que serão tão velhas, tão feias, tão pobres, tão sujas?

Mario Quintana (Porta giratória, p 127)


Imagem: www.weheartit.com

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cujas canções




     É costume cada um colocar sua profissão ou títulos nos cartões de visita.
     Ora,  quem escreve estas linhas já recebeu  alguns títulos da  generosidade de  seus conterrâneos;  escolher  um só seria indelicadeza com  os outros  proponentes.
     Quanto  a mim,  sempre  fui  de opinião  que  bastava  o  nome  da  pessoa,  sem  a vaidade  de  títulos secundários.  Mas eis que a minha camareira fez-me cair em tentação:  dá-se o caso que saiu a edição de meu livro Canções, ilustrado por Noêmia e que, ao ser noticiado por Nilo Tapecoara no "Bric-à-brac da Vida", este o publicou com o meu retrato em dua colunas, e, abaixo do mesmo, uma notícia que assim principiava, com a primeira linha impressa em letras maiúsculas:
     MARIO QUINTANA, CUJAS CANÇÕES etc. etc... Ora, na manhã daquele dia, ao servir-me o café na cama, sia Balbina não podia ocultar o orgulho que lhe causava o seu hóspede e repetia: 
     "Cujas canções, hein, cujas canções!"
     O seu maior respeito era devido, sem dúvida, à misteriosa palavra "cujas"...
     E  não  sei  se  resistirei  à idéia que me inspirou sia Balbina:  imprimir meu cartão de  visitas assim:

MARIO QUINTANA
Cujas Canções


Mario Quintana (Porta giratória, p 23)


Imagem: www.deviantart.com

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apenas


     O criador - seja ele um romancista, um cineasta, um pintor, um poeta - não cria coisa alguma. E num mundo onde todas as coisas já existiam, o verdadeiro criador se limita apenas a mostrar tudo aquilo que os outros olhavam sem ver.

Mario Quintana (Porta giratória, p 167)



Imagem: www.Fallen-Pearls.deviantart.com

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Drácula e os pesquisadores



     O que chateia nos filmes de vampiros não são os ditos vampiros - em geral uns verdadeiros amores no gênero - mas aqueles dois indefectíveis personagens: um que acredita em tudo e outro que não acredita em nada... Falta-lhes o espírito de disponibilidade - que talvez não seja apenas uma característica do homem moderno, e sim do homem eterno. Ou, no mínimo, do leitor inteligente.

Mario Quintana (Porta giratória, p 34)




Imagem: www.weheartit.com

domingo, 15 de maio de 2011

Da amizade


A amizade é uma espécie de amor que nunca morre...

Mario Quintana (Porta giratória, p 137)





Citando Caio Fernando Abreu...


(A Vera e Henrique Antoun, 23.12.71)

         "meus queridos: imaginem um mundo de coisas limpas e bonitas, onde a gente não seja obrigado a fugir, fingir ou mentir, onde a gente não tenha medo nem se sinta confuso (não haverá palavra nem a coisa confusão, porque tudo será nítido e claro), onde as pessoas não se machuquem umas às outras, onde o que a gente é apareça nos olhos, na expressão do rosto, em todos os movimentos - acrescentem a esse mundo os detalhes que vocês quiserem (eu me satisfaço com um rio, macieiras carregadas, alguns plátanos e uma colina - ou coxilha, como se diz aqui no Sul - no horizonte), depois convidem pessoas azuis para se darem as mãos e fazerem uma grande concentração para concretizar esse mundo - e, então, quando ele estiver pronto, novo e reluzente como se tivesse sido envernizado, então nós nos encontraremos lá e eu não precisarei explicar nada, nem contar nenhuma estória escura, porque estórias claras estarão acontecendo à nossa volta e nós estaremos sendo aquilo que somos, sem nenhuma dureza, e o que fomos ficou dependurado em algum armário embutido, junto com sapatos (quem precisará deles para pisar na grama limpa dessa terra?), roupas e enfeites (quem precisará de panos, contas ou cores na terra onde o ar será colorido e enfeitará nossos corpos?) - lá, eu digo, nós nos encontraremos entre centauros, sereias, unicórnios e duendes, e sem dizer nada, com um olhar verde (uma das minhas grandes frustrações sempre foi não ter olho verde - mas lá eu terei) eu direi o quanto gosto de vocês, e voaremos de tanta boniteza - combinado?"

(Caio 3D: O essencial da década de 70. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p 301)




Imagem: www.deviantart.com

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Não sou supersticioso




     ... mas o 13 é o meu número de sorte. Por motivos de ordem sentimental. Só porque todo o mundo tem medo dele...

Mario Quintana (Porta giratória, p 145)



Imagem: www.deviantart.com

terça-feira, 26 de abril de 2011

A rainha



     Elizabeth II? Não: Elizabeth, simplesmente... Ou então a Lilibeth, como a chamavam quando menina. E foi mesmo uma grande sorte para o Império Britânico que haja ascendido ao trono uma mulher, e uma mulher moça e bela. Porque sendo ela o símbolo do Império, os seus súditos, por um natural sentimento de galanteria, com tanto menos empenho hão de servi-la, servindo assim ao Império.
     Pois estou a crer que o ardor não seria tanto assim, se agora encarnasse o Império algum madurão de olhos empapuçados (os homens da Casa de Windsor têm todos uma singular antifotogênica tendência para empapuçar os olhos). Mas, sendo ela quem é, e como é, para o mais anônimo soldado de Sua Majestade, para o mais modesto funcionário da administração, distantes e perdidos para os confins do Império, a encantadora Elizabeth será, a seus olhos e em seus corações, uma espécie de PIN-UP QUEEN.

Mario Quintana (Porta giratória, p 168)


Imagem: www.weheartit.com

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ah! É?



     Acabo de ler, num artigo de jornal, que pertenço à "antiga geração". Deve ser por isso mesmo que me sinto tão arejado como um velho casarão de vidraças partidas.

Mario Quintana (Porta giratória, p 133)




Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 21 de março de 2011

Da boa e da má ignorância



     A ignorância rasa e simples é coisa honesta e conserva desanuviado o entendimento. Mas Deus te livre, meu filho, da ignorância complicada.

Mario Quintana (Porta giratória, p 110)




Imagem: www.deviantart.com

domingo, 20 de março de 2011

Manifestações de amor



     Uma das mais deliciosas manifestações de amor é a falta de respeito.

Mario Quintana (Porta giratória, p 136)








Imagem: www.weheartit.com

sábado, 19 de março de 2011

Coincidência




Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagem e está fazendo poesia.

Mario Quintana (Porta giratória, p 135)







Citando Eça de Queiroz... 


[...] E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! [...]

(O primo Basílio. São Paulo: Ática, 1994, p. 134.)







Imagem: www.weheartit.com

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os nomes




     Como não lhes interessa o que parece inútil, os campônios não dão importância às flores do campo. É o que parece. Mas a gente fica a perguntar-se como é que essas flores silvestres conseguiram então ter nomes populares: margaridas, amores-perfeitos, coisas assim!

Mario Quintana (Porta giratória, p 33)




Imagem: Karl Schreiner Photographic

sexta-feira, 4 de março de 2011

As más companhias



     O que mais irrita os jovens é quando lhes aconselham que evitem as más companhias... Como se eles não pudessem perder-se por conta própria!

Mario Quintana (Porta giratória, p 124)



Imagem: www.deviantart.com

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O leitor ideal




     O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
     Uma frase? Que digo? Uma palavra!
     O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina".
     Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
     Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
     Sem mais nada.
     Até sem nome.
     Sem cor de vestido nem de olhos.
     Sem se saber para onde ia...
     Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
     E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
     E  se  o leitor  nada  conseguisse  tirar  dessa  obra-prima,  poderia  o autor  alegar,  cavilosamente,  que  a culpa não era do cronista.
     Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar os seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
     Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?

Mario Quintana (Porta giratória, p 74)



Imagem: Anita Malfatti ("A ventania", 1915-17)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Receita



     No dia em que estiveres muito cheio de incomodações, imagina que morreste anteontem... Confessa: tudo aquilo teria mesmo tanta importância?

Mario Quintana (Porta giratória, p 145)



Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os intocáveis




     A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdicá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes, ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível.


Mario Quintana (Porta giratória, p 110)




Imagem: www.deviantart.com

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Carvalhos e margaridas




     Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vem operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakesperiano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.

Mario Quintana (Porta giratória, p 32)








Imagem: www.deviantart.com