sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mundo



    E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres desconhecidos,
    Uma data ilegível e maravilhosa.

    Quem viria bater à minha porta?

    Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,
    Outro amar sob estranhos zodíacos...

    Outro...

    E o terror de construir mitologias novas!


    Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro, p 24)






Imagem: www.deviantart.com

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os intocáveis




     A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdicá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes, ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível.


Mario Quintana (Porta giratória, p 110)




Imagem: www.deviantart.com

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A verdade da ficção



                                                                                           
     São Jorge, o cavalo, o dragão... eu sempre fui, já não digo um devoto, mas um fã dos três. São Jorge, eu soube, foi cassado. É verdade que andava metido em tudo o que era religião... Mas que culpa tinha ele de ser bonito e ecumênico? Porém, ao passo que São Jorge era dessantificado, ressucitava-se o Diabo, retirando-o do domínio do folclore a que o relegara o povo. Mas e o dragão? O dragão não representava o mal, isto é, o Diabo? Alega-se que São Jorge nunca existiu. Ora, naquela imagem que, de tanto a vermos desde a infância, fazia parte da nossa sensibilidade, o dragão era também uma figura simbólica. Porém existe... Naquela bela imagem, pois, resta-nos agora o cavalo e o dragão. Luta desigual. Foi-se o cavaleiro andante do Bem.
     E como que nos ficou faltando um estímulo, um exemplo, uma esperança.
     O que  nos faz lembrar aquele Outro cavaleiro andante,  Dom Quixote - outro símbolo. Que nunca existiu, é claro. Mas como vive!

Mario Quintana (A vaca e o hipogrifo, p 40)








Imagem: www.deviantart.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O preto



     O preto tem a vantagem de realçar as cores que o cercam sem nada perder no entanto da sua própria e grave afirmação.

Mario Quintana (Caderno H, p 132)





Recomeços

Esqueça esse rosto plástico,
esse gosto metálico,
essa lágrima contida...
Chore suas dores,
ria suas alegrias. 


Caminhe...
do peso de morrer
para depois sorver 
o ar aos pulmões.


Até que um dia
respirar se perca do grave
e se torne um movimento suave, 
feliz e involuntário.

Lu Tostes






Imagem: www.deviantart.com





segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poema para uma exposição


                 
    O quadro na parede abre uma janela
    que dá para o outro mundo
    deste mundo...

    Um mundo isento de rumores
    e de mil flutuações atmosféricas
    - alheio a toda humana contingência...

    Onde um momento é sempre
    e o mal e o bem não têm nenhum sentido...

    Mundo
    em que forma também é a própria essência.

    Ó Vida
    Transfixada ao muro - e que palpita,
    entanto,
    num misterioso, eterno movimento!

    Mario Quintana (A cor do invisível, p 38)



      Imagem: Claude Monet ("Mulher com sombrinha", 1875)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Canção do amor imprevisto



    Eu sou um homem fechado.
    O mundo me tornou egoísta e mau.
    E a minha poesia é um vício triste,
    Desesperado e solitário
    Que eu faço tudo por abafar.

    Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
    Com o teu passo leve,
    Com esses seus cabelos...

    E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...

    A súbita dolorosa alegria de um espantalho inútil
    Aonde viessem pousar os passarinhos!


    Mario Quintana (Canções, p 62)



Citando Fernando Pessoa... 
(sob pseudônimo de Alberto Caeiro)

O pastor amoroso 

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(10-7-1930)

Fonte: (O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p 167) 






Imagem: www.deviantart.com